Esse Tempo (quase) Todo – Declarações (Parte 2)
Seguindo na história do quase, tudo começou pela frase seguinte frase: “Eu fiquei sozinho esse tempo todo.” Isto posto, não se seguiu nenhuma gargalhada, embora pudesse, mas daí então entrou o “quase”, então ficamos com: “Nesse tempo (quase) todo eu fiquei sozinho.” Mas não só isso, nesse tempo (quase) todo, a única coisa que não era quase eram os fatos: “Nesse tempo (quase) todo eu sai, Nesse tempo (quase) todo eu me diverti, Nesse tempo eu (quase) acreditei que pudesse ficar longe de você, E foi (quase) verdade. (quase!) Nesse tempo (quase) todo eu procurei Nesse tempo (quase) todo lutei, Nesse tempo eu (quase) via a felicidade em coisas que não eram você, E eu fui (quase) feliz. Depois desse tempo (quase) todo sobrou uma paixão, Depois desse tempo (quase) todo sobrou uma confusão, Depois desse tempo eu (quase) deixei acabar o espaço que era seu, Eu estava (quase) apaixonado. Depois desse tempo todo (quase) acabou, Depois desse tempo todo (quase) desencantou, Depois desse tempo todo eu (quase) amei outro alguém, Eu (quase) me permiti.” Se nós tirarmos o “quase” entre parênteses nas quatro estrofes acima mudamos completamente o sentido do texto. Vejamos: “Nesse tempo todo eu sai, Nesse tempo todo eu me diverti, Nesse tempo eu acreditei que pudesse ficar longe de você, E foi verdade. Nesse tempo todo eu procurei Nesse tempo todo lutei, Nesse tempo eu via a felicidade em coisas que não eram você, E eu fui feliz. Depois desse tempo todo sobrou uma paixão, Depois desse tempo todo sobrou uma confusão, Depois desse tempo eu deixei acabar o espaço que era seu, Eu estava apaixonado. Depois desse tempo todo acabou, Depois desse tempo todo desencantou, Depois desse tempo todo eu amei outro alguém, Eu me permiti.” Mais uma vez é como se o “quase” fizesse a distinção entre a razão e a emoção. Como ninguém declara um não amor, fica fácil deduzir que para o autor o texto real é o da primeira possibilidade. Tal afirmativa se consolida como verdadeira também devido ao título “Declarações” referente a esta segunda parte do texto. Há de se convir que ao lermos “declarações” fica subentendida a complementação “de amor”, embora exista a dualidade de interpretação, porém pouco provável, imposta no plural aplicado. Em cada uma das possibilidades a situação de quem escreve é absolutamente oposta a outra e é curioso como o emprego exaustivo da palavra “quase” pode mudar completamente esses significados. Como não amamos pela razão, podemos concluir que a segunda declaração embutida no título é a da mentira descrita no segundo conjunto de estrofes, onde não encontramos a melancolia descrita do primeiro conjunto. Acreditamos que assim como não amamos pela razão, também por ela não sofremos. Logo, reitera-se: o primeiro texto representa o sentimento verdadeiro, o amor que ainda existe e mostra-se determinante para que a felicidade também exista, ou seja, representa a emoção; e o segundo representa uma falsa ausência de sentimento, que de tão importante ofusca o suposto amor que só é revelado no penúltimo verso “depois desse tempo todo eu amei outro alguém”, ou seja, representa a razão. Mais do que buscar a correta atribuição de valores a cada uma das variáveis o que ainda podemos extrair do texto é que mesmo sendo fato ele estar escrito no pretérito perfeito o “quase” vive automaticamente na nossa interpretação a idéia de presente, onde o autor “não pode ficar longe”, “não vê a felicidade em outras coisas”, “não deixa acabar o espaço” e “não ama outro alguém” (primeiro conjunto de estrofes); no segundo conjunto de estrofes com a ausência da palavra “quase”cada verso continua no passado, onde o autor “acreditou que podia ficar longe”, “viu a felicidade em outras coisas”, “deixou acabar o espaço” e “amou outro alguém”. Como última consideração sobre os textos pode-se destacar que embora a melancolia esteja presente no primeiro conjunto de estrofes ele é menos denso que o segundo, onde o autor consegue superar seu grande amor fracassado com um outro amor, amor esse que também fracassou não deixando margem para que exista a esperança presente no primeiro. Mais do que conclusões lingüísticas podemos extrair do texto que por mais que se busque discernir entre o caminho da emoção ou o da razão a razão sempre vai estar presente na emoção e a emoção sempre vai estar presente na razão e muitas vezes essa presença poderá estar de forma tão marcante que se quer poderemos saber sobre qual caminho, predominantemente, estaremos andando.
Escrito por Lipe Lima às 07h14
[]
[envie esta mensagem]
|